Como qualquer português, eu também estou muito desanimado com o jogo de hoje. Não quis fazer o rescaldo do encontro logo, sem antes ter ponderado bem sobre tudo o que vi (e ouvi). Há muita coisa a rever, mas também nem tudo se desenrolou no panorama negro, que muita comunicação social quer fazer transparecer.

O modo como o jogo foi preparado foi o mais correcto. Até ao começo deste jogo, a única coisa a apontar a Queiroz foi a falta de ambição no jogo com o Brasil. Tivesse o seleccionador sido mais ambicioso na abordagem ao encontro que poderia dar o primeiro lugar, e hoje, provavelmente, estaríamos nos Quartos-de-Final, já a preparar um encontro com uma Holanda, perfeitamente ao nosso alcance. Não houve coragem para "atacar" o Brasil e fomos conduzidos para uma eliminatória frente à actual campeã da Europa, Espanha. Um "prémio" justo para a falta de ambição.
Chegados ao jogo com a Espanha, e olhando para a organização táctica da equipa portuguesa, durante o primeiro tempo, pouco ou nada se pode apontar à equipa e seleccionador nacional. Portugal, no primeiro tempo, soube controlar o jogo da Espanha e até criou situações de perigo que, com alguma sorte, até poderiam ter dado em golo. Não fomos felizes no capítulo da finalização, mas também não deixámos a Espanha jogar como queria. Soubemos defender em bloco e cortar todas as linhas de passe aos jogadores espanhóis, em especial a Xavi e Iniesta.
É no início do segundo tempo que o jogo acaba para Portugal. Tudo se resume ao minuto 58: Em Portugal sai Hugo Almeida e entra Danny, enquanto que na Espanha, Del Bosque troca Torres por Llorente. Nos 5 minutos seguintes às substituições, dão-se 3 lances de enorme perigo para os espanhóis, entre os quais, o golo (ilegal, diga-se) de David Villa. E isto deu-se porque os defesas centrais portugueses sentiram grandes dificuldades para lidar com a presença do gigante Llorente na área e os espanhóis passaram a controlar perfeitamente as acções de Cristiano Ronaldo no centro do ataque português. E é a partir daqui que deixo de perceber o papel de CR9 em campo. De facto, já começa a ser questionável a "liberdade" que dão a Ronaldo no ataque português. Pelo que vi no jogo de Portugal, temos 10 jogadores a funcionar como um forte colectivo (defensivo e ofensivo) e Ronaldo completamente à parte. Vejo um jogador só, na frente de ataque. E isto, meus caros, não é certamente o melhor jogador do mundo (ou um dos melhores, como preferirem). Este Cristiano Ronaldo já não é aquela máquina desequilibradora que vimos nos tempos de Manchester United. Que é feito daquele Ronaldo que jogava nas faixas laterais do ataque e desequilibrava, sempre, em situações de um contra um. Perdoem-me mas Ronaldo não tem de usufruir de liberdade nenhuma na frente de ataque. Ronaldo tem de ser mais um a ajudar a equipa, e não, um jogador fora das movimentações de jogo de todo o colectivo português. Espero que Queiroz entenda que Ronaldo não tem de jogar sozinho lá na frente com "toda a liberdade". Antes de ser um brilhante jogador (que o é), Ronaldo pertence a uma equipa que não tem de jogar em função do seu talento. Portugal, com Ronaldo nas zonas laterais, pode jogar com Ronaldo, e não, para Ronaldo.
Depois do golo, o jogo ficou fácil para a Espanha que não teve de se esforçar muito para gerir a vantagem. A vantagem no marcador permitiu que os jogadores espanhóis tivessem mais espaços e que conseguissem fazer uma maior (e melhor) circulação de bola. A partir do golo, já pouco havia a fazer.

Num rescaldo final àquilo que foi a nossa participação no Mundial, temos sempre bons e maus apontamentos. Os maus estão essencialmente associados àquilo que referi sobre os jogos frente ao Brasil e à Espanha. Pouco ou nada há a dizer mais.
Convém, agora, reafirmar que surgiram aspectos positivos com esta participação portuguesa no Mundial. Começando desde logo, pela baliza portuguesa. Eduardo foi fenomenal neste Mundial. O guarda-redes português fez por merecer o lugar no onze nacional e bem merece um contrato num clube de topo europeu. De Coentrão, acho que já nem preciso de dizer muita coisa. Está a vista de todos: temos lateral-esquerdo para os próximos 10 anos. Os portugueses bem podem agradecer a Jesus, esta brilhante descoberta. Há muitos, muitos anos que não tínhamos um lateral esquerdo com a qualidade de Coentrão. Problema resolvido.
Os centrais Bruno Alves e Ricardo Carvalho estiveram quase sempre bem. Carvalho, principalmente, é o patrão da nossa equipa. O verdadeiro capitão da nossa equipa. Espero que se aguente na nossa selecção durante vários anos. Vai ser um jogador muito difícil de substituir. Para o meio-campo, vimos que o tridente do meio-campo composto por Pedro Mendes, Raúl Meireles e Tiago completou-se muito bem. Destes três, Meireles foi sempre o melhor jogador. Deu tudo o que tinha em cada jogo e lutou muito no meio-campo. É deste tipo de jogadores que precisamos para a nossa selecção. Queira ainda destacar a presença de Hugo Almeida na nossa frente de ataque. Já aqui falei dele, e, muito sinceramente, acho é um jogador importante e a preservar para o futuro.
O futuro da selecção é para começar a ser tratado já. Agora segue-se o Europeu de 2012, e temos de lá estar. Se possível, com uma qualificação mais tranquila do que esta última. Há coisas a mudar, mas muita coisa também a preservar.
PS: A atitude de Cristiano Ronaldo, no final do encontro, é lamentável e demonstra bem o estatuto que o jogador usufrui na equipa. Pode dizer o que lhe apetece e nada lhe acontece. Ronaldo tem de perceber, de uma vez por todas, que não está acima de ninguém na equipa. Que Mourinho, este ano, o coloque na ordem. O nosso craque bem precisa de umas boas lições de humildade.






