Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

A Evolução no Futebol Português

Artigo publicado no site "Record" no dia 23 de Agosto de 2012: 
http://www.record.xl.pt/opiniao/leitores/interior.aspx?content_id=774729  

Somos um povo insatisfeito. Gostamos sempre de ter mais e de nos equiparar aos melhores. Não somos grandes em tamanho, mas procuramos sempre transcendermo-nos e eliminar todas essas diferenças que possam existir. Nós, portugueses, somos ambiciosos e gostamos de ser os melhores. No entanto, por vezes, isso não é possível. E é por isso mesmo que temos sempre tanto para dizer e imenso para aperfeiçoar.

Esta realidade não é diferente, quando falamos do Desporto praticado em Portugal. Viu-se toda essa exigência, recentemente, nos Jogos Olímpicos e continuar-se-á a ver sempre que participarmos numa qualquer competição oficial. A competitividade e a exigência são características que nos estão inatas e são elas que nos ajudam a ser cada vez melhores. Daí que me pareça que faz falta, a grande parte dos portugueses, um pequeno exercício de memória. Está na hora de olharmos em redor e perceber que, nos últimos anos, o desporto nacional (claro que falo em particular do Futebol) teve uma evolução muito positiva.
Obviamente que ainda estamos muito longe de ser perfeitos. Ainda há demasiada atenção concentrada no Futebol, o que acaba por provocar um completo esquecimento em quase todos os restantes desportos de alta competição (volto a chamar a atenção para a realidade da participação portuguesa nos Jogos Olímpicos e para a falta de apoios que a grande maioria dos atletas têm durante todos os anos precedentes à competição). Mas como nem todos os artigos de opinião devem registar apenas o levantamento de questões negativas, neste texto queria chamar a atenção do leitor para alguns factores que, por vezes, caem no esquecimento da maioria dos portugueses. 
Desde logo, pelo facto de o nosso futebol estar ao nível dos melhores do Mundo. O melhor treinador, como se sabe, é português, o melhor jogador do Mundo (ou segundo melhor, depende das perspectivas) também é português e a grande maioria dos nossos internacionais são todos de “craveira internacional”. Esta conversa já não é nova, mas é sempre bom relembrar, porque há muita gente que se esquece (ou faz por esquecer) tudo aquilo que de bom os portugueses têm conquistado lá fora. E se, no exterior, já é dado o devido valor ao português, por cá estamos, finalmente, a enveredar por esse caminho também (por mais incompreensível que isto possa parecer, só começamos a dar valor ao que temos, quando há alguém, lá fora, que reconhece o nosso talento). É apreciável que finalmente, ao nível do corpo técnico, tenhamos dado primazia ao treinador português, em relação ao estrangeiro. E o resultado está à vista, tanto a nível interno, como externo.
Sei que o que vou dizer agora vai gerar alguma controvérsia, mas, na minha opinião, o futebol português tem evoluído muito a nível estrutural. Houve, notoriamente, uma evolução positiva ao nível da organização das competições nacionais e este crescimento só não é mais sustentado por culpa da grave crise financeira, que se alastrou a todos os clubes nacionais. Estamos a olhar para os modelos mais organizados do Mundo do Futebol (nomeadamente o inglês e o espanhol) e a tentar aprender e a implementar novas medidas, que têm tido bons resultados práticos nesses campeonatos. Sempre tendo em linha de conta que a nossa realidade é diferente (ou seja, inferior), convém assimilar algumas ideias que podem resultar em Portugal a curto/médio prazo. A criação das equipas B foi, quase de certeza, inspirada no sucesso que o futebol espanhol teve nos últimos anos e que reforça a competitividade na Segunda Liga Portuguesa e, ao mesmo tempo, cria rotinas de jogo a jogadores mais jovens (e portugueses), que ficam mais próximos da equipa principal do seu clube. Veja-se o exemplo do Marítimo, que foi, precisamente, a única equipa que manteve uma equipa B, durante estes anos, e que, sem muitos recursos, evoluiu imenso nos últimos tempos, através da inclusão, no seu plantel principal, de vários jogadores que se destacaram na sua equipa secundária.
Outro projecto, criado de forma lógica, mas que ainda carece de alguma estabilidade estrutural é a Taça da Liga Portuguesa. Já muito foi discutido e parece ser consensual que faltam criar motivações para a participação dos clubes mais pequenos nesta competição. Nos moldes em que está criada, para além do benefício óbvio que as eliminatórias finais dão aos grandes, o prémio final monetário não parece ser aliciante o suficiente para que as equipas mais pequenas coloquem em risco a sua participação no campeonato, para se empenharem, de forma mais competente, nesta competição. Apesar de ser um bom projecto, que visa apoiar a utilização de mais jogadores e a rotatividade dos plantéis, para além do reforço da competitividade entre os clubes, parece apenas faltar uma motivação final, para quem ganha esta competição… (um lugar nas competições europeias seria, digo eu, uma motivação mais do que suficiente).
Apesar de todas as críticas feitas à nossa estrutura desportiva parece-me que se têm feito esforços interessantes. É evidente que tudo necessita de melhorar, mas isso tanto se aplica aqui, em Portugal, como no estrangeiro. Porque estamos finalmente a caminhar no sentido correcto. Tanto a nível de clubes, como de selecções.

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