Este texto foi realizado no âmbito da cadeira de Ética e Deontologia do Jornalismo, leccionada pelo prof.º Oscar Mascarenhas.
Caso de Falta de Ética Jornalística
Eleições do Sporting CP
O tema que decidi desenvolver no seguinte relatório prende-se com a tentativa de verificar se existiu, ou não, falta de ética jornalística revelada, por alguns órgãos de comunicação social portuguesa, durante a cobertura das Eleições do Sporting Clube de Portugal, no passado dia 26 de Março de 2011. O objectivo deste trabalho consiste na tentativa de decifrar e encontrar maneira de explicar todos os factores exteriores a estas eleições e tentar verificar em que medida é que as movimentações dos meios de comunicação social tiveram influência directa na forma como estas eleições se processaram.
Contextualmente, estas eleições do Sporting Clube de Portugal inseriam-se num dos períodos mais complicados da história do clube. A demissão do antigo Presidente, José Eduardo Bettencourt, aliada aos maus resultados desportivos e grande instabilidade financeira do Sporting CP, davam um carácter de “extrema importância” ao resultado final destas eleições. Os associados do clube esperavam, com alguma ansiedade, o seu desfecho e o facto de existirem cinco candidatos, todos eles com ideias diferentes, não ajudava a amenizar os ânimos e o anseio de todos, em relação a estas eleições. Neste processo eleitoral, de entre os 5 candidatos apresentados, as sondagens realizadas, nos tempos anteriores às eleições apresentavam, como principais candidatos à vitória, Bruno de Carvalho e Luís Filipe Godinho Lopes. Dias Ferreira, Pedro Baltazar e Abrantes Mendes, os outros três candidatos, eram apresentados como “outsiders”, durante todo o processo de “pré-eleições”. De entre as sondagens que foram sendo apresentadas, verificava-se, quase sempre, uma disputa, muito equilibrada, entre Bruno de Carvalho e Godinho Lopes, na luta pela vitória, e uma larga distância para os outros três candidatos.
Temos, como exemplo destas sondagens, o inquérito realizado pela Euroexpansão para o jornal “A Bola”, uma semana antes das eleições que dava uma vitória, com larga margem, a Bruno de Carvalho. Nessa sondagem, Bruno de Carvalho venceria com 42,6% dos votos contra, 18,5% de Godinho Lopes, 10% de Pedro Baltazar, 4,6% de Dias Ferreira e 1,5% de Abrantes Mendes. Em relação aos indecisos, a percentagem era de 25,8 %. Ora, à primeira vista, poderíamos então concluir que, com uma vantagem tão folgada, e apesar de faltar ainda uma semana para o processo eleitoral, a vitória de Bruno de Carvalho, de uma forma, ou de outra, já estaria garantida. Mas os processos, por trás desta sondagem, são mais complexos do que aquilo que, efectivamente aparentam. Em primeiro lugar, verificar que os inquéritos foram feitos a apenas 616 sócios, à porta do Estádio de Alvalade, no dia em que Bruno de Carvalho apresentou o “seu” treinador, caso vencesse as eleições, Marco Van Basten. Isto acabaria, de certa forma, por influenciar, na altura de recolher os inquéritos, por ser no exacto local onde um determinado candidato acabava de apresentar o seu “trunfo” eleitoral, já que grande parte dos adeptos entrevistados poderia estar no Estádio para assistir à conferência de imprensa do candidato, Bruno de Carvalho. Para além deste condicionamento, convinha ainda relembrar que as regras de funcionamento dos sufrágios do clube são demasiado complexas, para serem apresentadas sondagens realizadas desta forma. Isto porque, nos sufrágios realizados pelo Sporting Clube de Portugal, nem todos os adeptos têm direito ao mesmo número de votos. Senão vejamos: Do sócio n.º 1 ao n.º 19 – 25 votos, do sócio n.º 20 ao n.º 113 – 22 votos, do sócio n.º 114 ao n.º 689 – 19 votos , do sócio n.º 690 ao n.º 2140 – 16 votos, do sócio n.º 2141 ao n.º 4535 – 13 votos, do sócio n.º 4536 ao n.º 9907 – 10 votos, do sócio n.º 9908 ao n.º 20210 – 7 votos, do sócio n.º 20211 ao n.º 43928 - 4 votos e do sócio n.º 43929 ao n.º 83034 - 1 voto. Isto, para além do facto de as votações estarem apenas reservadas a eleitores com mais de 18 anos.
No entanto, e apesar de todas estas incongruências e irregularidades na condução desta sondagem, foram vários os órgãos de comunicação Social a dar enfâse este inquérito e a publicá-lo nas suas edições. Temos, por exemplo, o jornal Público, com o destaque “Sondagem dá vitória a Bruno de Carvalho” ou a Renascença, na sua edição online, com o título “Sondagem do jornal "A Bola" dá vantagem a Bruno de Carvalho”. No desenvolvimento da notícia, porém, nenhuma das publicações dá conta sobre o contexto do inquérito e a forma como foi conduzido e as “circunstâncias” em que foi utilizado.
Assim sendo, no período que se seguiu, até ao dia das eleições, os jornais, quase diariamente, iam reforçando o “poder” de Bruno de Carvalho, nestas eleições, e a forma como ele seria o candidato vencedor e o novo presidente do Sporting Clube de Portugal. Tudo isto, tendo como base a sondagem efectuada pelo jornal “A Bola”, uma semana antes. A margem de manobra, ganha na sondagem, foi suficiente para que se instalasse um pensamento generalizado de que iria ser mesmo Bruno de Carvalho, o novo presidente do Sporting Clube de Portugal.
Chegados ao dia 27 de Março de 2011, dia das eleições, todas as perspectivas (e sondagens) apontavam para a vitória de Bruno de Carvalho sobre os restantes quatro candidatos. Neste acto eleitoral, que acabou por ser a terceira maior afluência de sempre, de sócios do Sporting CP, às urnas, parecia já difícil de conceber, para grande parte dos adeptos que Godinho Lopes pudesse mesmo vir a ser presidente do clube. As votações decorreram com normalidade até às 18h35, altura em que o jornal “Record” anunciava, que, às 20h, em ponto, iria anunciar o novo presidente do Sporting Clube de Portugal. Isto, apesar de Lino de Castro (Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting) ter alertado para o facto de a espera pelos resultados poder vir a estender-se pela noite dentro, devido à enorme afluência de sócios às urnas. Apesar disto, e sem se compreender muito bem como, o que é facto é que o jornal “Record” garantia que iria “apresentar” o vencedor das eleições às oito da noite, do dia 26 de Março.
Às 20h em ponto, o Record publicava, então, o “suposto” vencedor das eleições: Bruno de Carvalho, com 38,1% a 40,4% das intenções de voto, contra Godinho Lopes que teria, entre 35,5% e 37,7%. Os restantes candidatos tinham, todos, percentagens inferiores a 15%. O título da publicação do jornal era “Bruno de Carvalho é o novo presidente”. É incompreensível como é que um jornal, com a visibilidade e historial do “Record” apresenta um título desta forma e, em seguida, no corpo da notícia refere que o inquérito teve como base, apenas, o horário entre as 10 e as 18 horas do dia em que ocorreu a votação e que haveria “uma probabilidade de êxito para Godinho Lopes: a de, entre as 18 e as 20 horas, o único período do dia que o inquérito de Record não contempla, haver uma afluência às urnas bastante significativa de sócios mais antigos”. Isto quer dizer, no fundo, que de sondagem, esta “angariação de respostas” teve muito pouco. O período que o “Record” decidiu não cobrir foi, obviamente, importante para o desenrolar das votações e garantir a vitória de um candidato, naquela altura, e sabendo-se as complexidades destas eleições, foi um erro crasso. Um jornalista é contratado para fazer notícia segundo códigos éticos e o Jornal “Record”, ao apresentar esta notícia, desta forma, limitou-se a não fazer um bom trabalho jornalístico. Desde logo pela violação, clara, do Ponto 2, “o jornalista deve combater o sensacionalismo” e pela “quebra” no contrato de lealdade que une o jornalista aos seus leitores. Esta notícia foi, no fundo, uma espécie de “verdade cínica”, na qual, aparentemente, o “Record” tentou iludir os seus leitores com um título, que nada tinha de verídico, e que tinha, dentro do corpo da notícia, elementos que distorciam o que era dito anteriormente.
Esta notícia do “Record” teve, naturalmente, uma enorme repercussão nos restantes meios de comunicação social e imprensa portuguesa. O “efeito bola de neve” foi imediato e, em poucos minutos, a notícia do Jornal “Record” alastrou-se para os restantes órgãos de comunicação social. O Diário de Notícias, por exemplo, avançava logo com o título “Bruno de Carvalho é o novo Presidente”, dando como um dado adquirido que o candidato iria, mesmo, ser o novo presidente do Sporting CP. Nesta notícia, não se vislumbra nenhuma referência para as “rectificações” que o Record apontou, acerca do facto de a sondagem poder estar errada e dar a vitória a Godinho Lopes. Todas as informações eram dadas como certas, e o Diário de Notícias acabou por não comprovar os factos que apresentou, limitando-se a transmitir uma informação, sem se preocupar com as inconsistências que ela apresentava. A sondagem do “Record” também foi apresentada por outros órgãos de comunicação social, de referência, como o “Público”, embora este, com um título mais “discreto”: “Projecção dá vitória a Bruno de Carvalho nas eleições do Sporting”. O mesmo jornal, apesar de tudo, confirma, no corpo da sua notícia, que a vitória de Bruno de Carvalho “ainda não é certa, já que a diferença para o segundo mais votado é muito curta”. No fundo, dá para entender que os jornais “Record” ou “Público”, neste caso, tinham o receio (que mais tarde se veio a confirmar) de estar a noticiar algo que não era totalmente um dado adquirido. No entanto, a precipitação (ou, talvez, a vontade de querer ser o “primeiro” a informar) falou mais alto. Nos meios televisivos, também a TVI, por exemplo, quando estavam ainda 400 votos por contar, decidiu transmitir a informação de que Bruno de Carvalho tinha ganho as eleições. Todas estas acções destes meios de comunicação social acabaram por revelar uma tremenda falta de ética jornalística, não havendo “lealdade” e “respeito” para com o leitor, que foi levado a acreditar nestas notícias. Tal como Fernando Correia, autor da obra “Os Jornalistas e as Notícias”, indica, um “jornalista deve estar ao serviço do público, no sentido de ser o seu dever profissional contribuir para a boa informação dos leitores”. E, neste caso, nenhum deles esteve.
Este “encadeamento” de informações provocado pelo jornal “Record” gerou, obviamente, uma grande agitação perante os sócios do Sporting CP. Imediatamente, após a divulgação da notícia, um vasto grupo de adeptos, todos eles apoiantes de Bruno de Carvalho, juntaram-se à porta do Estádio de Alvalade para celebrar a “suposta” vitória do candidato. Convém, ainda, relembrar que estas eleições do Sporting CP dividiram praticamente em dois, os apoiantes do Sporting: de um lado, uma facção mais jovem, e apoiante de Bruno de Carvalho. De outro, a facção mais adulta (e com direito a mais votos, nas eleições) que apoiava Godinho Lopes.
O que é facto é que os resultados acabaram por não ser anunciados, de imediato, o que motivou ainda mais ansiedade nos adeptos presentes nas imediações do estádio. Perto da uma da manhã, motivados pela impaciência, vários elementos da claque do Sporting CP e apoiantes de Bruno de Carvalho, chegaram a tentar invadir as salas de voto. Seria, pouco depois, anunciado que, efectivamente, Godinho Lopes seria o presidente, e não Bruno de Carvalho, como o Record tinha garantido anteriormente. Neste caso, acaba por se concluir que a influência dos meios de comunicação e a falta de ética revelada por todos eles teve clara influência na forma como tudo se processou. Se a vitória de Bruno de Carvalho não tivesse sido dada como garantida, provavelmente, os casos de violência, ocorridos após o anúncio da vitória de Godinho Lopes, poderiam não ter existido.
No fundo, os resultados apresentados não foram nunca favoráveis a Bruno de Carvalho e tal facto foi comprovado por Lino de Castro, após as eleições. Houve recontagem de votos com todos os candidatos presentes e Godinho Lopes venceu as eleições: "Foi feita uma recontagem de votos depois da primeira, foi feita uma nova introdução de dados e repetiu-se o resultado com os mesmos números. Nunca ninguém questionou de qualquer lista, contestou ou mostrou dúvidas sobre estes resultados. Nunca mais ninguém pediu qualquer recontagem”. Conclui-se, portanto, que nunca houve nenhum problema com estas eleições e que toda a confusão instalada, após se conhecer os resultados, foi provocada pelos media portugueses. O erro cometido, não só pelo jornal “Record”, mas também por todos os meios de comunicação social que foram atrás desta “sondagem”. Exigia-se, de todos os órgãos de comunicação social, um mea-culpa neste caso. Apesar de Felipe Pena, na sua obra “Teoria de Jornalismo”, afirmar que a “retracção nunca tem o mesmo espaço das acusações”, neste caso, era essencial que tal acontecesse para que a maioria da opinião pública entendesse que a sondagem apresentada pouco, ou nada, tinha de credível.
Pode-se então concluir que, neste caso, houve, efectivamente, falta de ética jornalística, por parte de toda a comunicação social envolvida nesta cobertura. O jornal “Record”, por fundamentar e divulgar uma sondagem, que tinha uma margem de erro muito larga, e os restantes meios por expandirem a própria notícia. Não se pode dizer que os meios de comunicação social faltaram à verdade, porque não faltaram. Preferiram a omissão de factores importantes, que, no fundo, alterariam a forma de pensamento dos receptores. Houve falta de ética, uma quebra do contrato de lealdade, estabelecido com os receptores e, principalmente, uma tentativa de impor uma ideia à audiência, que era infundada e tinha demasiadas irregularidades.
(Mário Alexandre Oliveira, nº 5608, Turma A de Jornalismo - Janeiro 2012)