Em termos práticos e se o mercado de transferências ainda não estivesse encerrado em Portugal, as transferências de Witsel e Hulk para o Zenit eram importantes mais-valias para o bem-estar económico de Benfica e Porto. A questão que me parece saltar à vista de todos é que tanto uma como a outra equipa acabam por ficar extremamente enfraquecidas com estes dois negócios. Do ponto de vista desportivo, é óbvio que foram dois negócios ruinosos para o futuro das duas equipas.
A saída de Hulk para o Zenit, apesar de o facto de ter sido avaliada em inacreditáveis 60 milhões de Euros, traduz para Vítor Pereira uma enorme complicação na forma como irá preparar toda esta nova temporada. Isto porque o brasileiro, pese embora alguma irregularidade em determinados jogos ou excessivas perdas de bola, em situações de ataque, era o elemento mais desequilibrador desta equipa do Porto. Em Portugal, há muito que não se via um jogador assim. Capaz de desbloquear certos jogos e com uma impressionante facilidade para marcar e assistir muitos golos. Hulk foi uma descoberta “incrível”, por parte do Porto, que acaba por render imenso, tanto desportivamente, como, agora, financeiramente. Em relação ao modelo de jogo, não me parece que Vítor Pereira tenha capacidade para inverter alguma coisa. O esquema do Porto está montado há muitos anos e, independentemente da qualidade de Hulk, a sua saída é vista apenas como uma troca de peças no modelo táctico da equipa (4-3-3).
Daí que me pareça que, neste momento, o Porto, colectivamente, não se vai ressentir desta ausência. Sai um. Entra outro. Nada muda. Individualmente, sim, a equipa do Porto vai sentir muitas dificuldades. Actualmente, olhando para as extremidades da equipa, vejo apenas um jogador com capacidade de desequilibrar jogos, de forma constante: é ele James Rodríguez. Não acho que Atsu, tal como Kelvin ou Iturbe, já estejam no momento certo para explodirem de vez e Silvestre Varela é, como sempre, uma grande incógnita. Isto para além do facto de que na frente de ataque não há nenhum Falcao e Jackson Martínez ainda tem muito para pedalar para chegar, sequer, a metade do rendimento do seu colega colombiano.
Em relação ao Benfica e à saída de Witsel, a situação também não é mais animadora. Creio que, nesta altura, Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira ainda estão a reflectir sobre o facto de terem deixado sair Javi García e não ter ido buscar ninguém para o meio-campo. Isto porque, nesta altura, as contas são bem simples: o Benfica tem 1 trinco apenas (que é Matic), dois médios ofensivos (Aimar e Carlos Martins) e jogadores da equipa B (fala-se em André Almeida e André Gomes). Não gosto de incluir neste lote Bruno César ou Gaitán, porque não me parecem ser jogadores com aptidão para jogar no centro do terreno. É um dado adquirido que, neste momento, Matic é importantíssimo para o Benfica. Sem ele, o Benfica perde o elemento que garante todo o equilíbrio da sua equipa. Viu-se bem, no último jogo na Luz, como é que o Benfica se comportou sem uma referência defensiva no seu meio-campo. Na primeira-parte, a equipa de Jesus não conseguiu impor o seu jogo e, em determinados momentos, era mesmo o Nacional da Madeira que geria a posse de bola no Estádio da Luz. A entrada de Matic veio revolucionar o meio-campo do Benfica e provar que o Benfica necessita de jogar, quase sempre, com um trinco. Daí que, se Matic não jogar, este ano, o Benfica só pode recorrer um jovem da equipa B. Em relação ao restante meio-campo, com a saída de Witsel, fica praticamente certo que o Benfica vai alinhar como Jorge Jesus sempre preferiu: com dois avançados, dois extremos e um médio ofensivo nas suas costas. Carlos Martins, Aimar, Gaitán ou Bruno César é que irão ter as honras de organizar o meio-campo do Benfica. Goste-se ou não (eu não gosto particularmente), neste momento, o Benfica só vai poder jogar assim, regularmente. É um esquema que dá garantias ao ataque do Benfica, mas que causa muitos problemas à defesa, que se vê, muitas vezes, descompensada com tanto pendor ofensivo. Jesus vai ter sucesso em grande parte dos jogos do campeonato. Mas tenho sérias dificuldades em acreditar que o Benfica vá ter sucesso em jogos de nível mais elevado ou que exijam mais cuidados em termos defensivos.
O dia de ontem foi histórico para o futebol português a nível financeiro. Foi impressionante e surpreendeu toda a Europa. Mas também aumentou o interesse no campeonato português. O Sporting CP e o Braga devem estar, neste momento, a agradecer o enfraquecimento dos seus mais directos rivais e as equipas do Benfica e do Porto procuram agora novas soluções, que permitam esconder o seu mais do que evidente enfraquecimento. O campeonato está lançado!

